prosas avulsas
sem nexo ou interconectividade
domingo, 4 de julho de 2010
Diálogo Boêmio Sobre A Efemeridade
- Não sei ao certo, talvez a efemeridade das coisas. Respondeu-me.
- Das coisas? Que coisas exatamente?
- De tudo, das coisas, das pessoas.
- Acho que entendo.
- É, às vezes pensar nisso me angustia.
- Também a mim. Mas veja, talvez a efemeridade tenha seu lado positivo. Já imaginou quão entediante seria se as coisas permanecessem para sempre imutáveis, constantes? É como se você trabalhasse em um escritório pequeno e fétido a mofo, tendo que todos os dias, usando as mesmas roupas e sapatos, o mesmo penteado, o mesmo perfume, ter que fazer as mesmas tarefas que fez no dia anterior, e em um espaço corrido de tempo ter que engolir a mesma comida ruim.
- E quanto às pessoas?
- Inevitavelmente passam também.
- E isso não é angustiante?
- Não sei ao certo.
- Você então concorda que são todas substituíveis?
- Ninguém é substituível, na realidade. Cada um é sui generis.
- Então isso é ruim.
- Não necessariamente.
- Como não?
- Você não pode substituir vodka por cerveja, pois vodka é vodka, e cerveja, cerveja. Cada qual tem suas particularidades, porém ambas são boas dentro de seus universos. Cabe-nos saber apreciar o que se tem. Mas que fique claro, tanto a vodka quanto a cerveja um dia acabam, a não ser que não sejam bebidas. Da mesma forma são as pessoas e as coisas, elas passam, a não ser que mantenhamos relações superficiais de modo que não percebamos nem saibamos diferenciar quando estão ou já passaram.
- Mas tem as que ficam, o que é bom.
- Sim, essas são como vinhos raros que deixamos estocados na adega de nossos afetos, deixando-os envelhecerem e assim tonando-se melhores. Mas são vinhos raros e bons, pois não adianta deixar um vinho barato e ruim envelhecer, pois ele será sempre ruim e barato.
- É sempre bom um bom vinho.
- Indubitavelmente, mas bebamos nossas vodkas.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Meus Cigarros e o Ciúme
E falava pouco, respondia menos ainda a tudo o que eu falava. Na mesa, copos de cerveja, aparelhos celulares e cigarros. Apesar de tão escuro, era possível observar seu rosto, pois eu o conhecia bem, tão bem em minha imaginação, tão bem, por tanto vê-lo sem tê-la em minha frente.
E me esforçava, meu deus, como me esforçava para que o silêncio não tomasse conta, silêncio outrora a mim tão benquisto, mas naquela situação não seria mais que inconveniência, pois eu queria mesmo é que ela falasse, que falasse pouco, que fosse, mas que falasse, para que eu visse leus lábios mexendo-se tímidos – como um predador que observa a presa e no fim não a mata, senão a ama.
Tereza tinha um olhar perdido no nada, o meu, ao contrário, tinha foco e visivelmente ostentava uma esperança triste. Quando me olhava e sorria, era de minha parte um gole desmedido em forma abstrata de auto-comemoração.
O fato é que estávamos ali, e se ali estávamos, não era por algo randômico, e sim porque queríamos, mesmo em intensidades diferentes.
Como fitei-lhe a boca, fitei o copo meio vazio de cerveja e o silêncio fez-se por instantes.
O que foi? – perguntou-me.
Por conta disso resolvi ser franco e tudo contei – meu desejo.
Tudo o que me disse foi: - Acenda-me um cigarro.
Era grande o meu querer, enorme. Tereza, no entanto, queria apenas um cigarro, desde o princípio. Foi aí que passei a odiar meus próprios cigarros, por ciúmes, por inveja.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Pequeno Conto Sobre um Sarcástico
Afastava-se, adentrando na penumbra das névoas acinzentadas, sumindo, sumindo, a o s p o u c o s. Deixava para trás os humanos que não o pertenciam, que o fitavam covardes à distância, imóveis e de olhos arregalados e raivosos, repudiando-o.
Entre as árvores gigantescamente seculares e aquela escuridão macabra e clichê, partia mergulhando no vapor cintilante como olhos de coruja. Em suas mãos cacos de um espelho quebrado, sangrando-lhe. Em seu peito uma dor fervente como se lhe tivessem jogado água de uma chaleira gritante. Cabisbaixo. Olhos cerrados.
Mas em seus lábios um sorriso discreto e rasgado... não se sabe o porquê.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
O Primeiro Triste Desencontro de Priscila
Artur e Priscila conheceram-se num tópico bobo de um site qualquer de relacionamentos, adicionaram-se e conheceram-se à medida em que a conversa fluía. Era notável que as fotografias da garota haviam passado por processos de edição de modo a melhorá-las; o rapaz, no entanto, tinha poucas fotografias, porém originais.
Todos os dias Prisca, como o rapaz já a chamava a esta altura, acessava a internet prontamente quando tinha tempo vago, dotada de ansiedade em encontrar o moço para horas e horas de conversas bestas e risos reais, incompreensivelmente reais. Da mesma forma ele o fazia do outro lado, quase simultaneamente, uma vez que com o tempo, ambos conheciam os horários livres um do outro. Aliás, com o tempo, ambos conheciam quase tudo um do outro.
Ela acreditava que o príncipe encantado não viria sobre um cavalo branco, esta fábula grotesca, e sim que viria como veio o seu Artur, imponentemente virtual.
Apresentavam muitas coisas em comum. Como sabê-lo? Por meio de comunidades, de vídeos, de músicas, de todas essas coisas que demonstram perigosamente um indicador de personalidade. Havia também o joguinho de frases, trechos de músicas ou poemas metaforicamente direcionados para o outro, especialmente quando eram de gosto comum.
Contudo jamais se viram.
Moravam em cidades vizinhas, cidades grande e vizinhas. Um encontro não seria algo rotineiro tampouco simples, mas já arquitetavam uma maneira de passarem juntos uma tarde num shopping center da cidade dela: clichê.
Marcaram.
Às 14 horas Priscila estava lá, sentada e produzida com seus melhores trajes, com sua melhor maquiagem, seu melhor penteado. Sentada esperando que Artur aparecesse. Esperou uma, duas, três tristes e agonizantes horas. Nada. Foi embora para casa, puta da vida e com a maquiagem borrada pelo choro derramado no fundo discreto do transporte público.
Chegou em casa e não surpreendentemente acessou a internet na esperança de uma boa explicação, mas nada encontrou, sequer vestígios do rapaz que já não estava mais associado às contas virtuais da garota e ela nunca mais o viu online.
Artur chegou antes das 14 horas e sentou-se num banco da área de lazer do movimentado shopping, pouco tempo depois observou uma garota sentar num outro banco ao longe, mas a pôde ver muito bem. Era tão feia a coitada: grande, gorda, cabelos estirados violentamente e lábios muito, muito grossos, olhos apertados, desengonçada. Aquelas fotos realmente não continham qualquer verossimilhança. Ele, então, não pensou duas vezes... vazou.
Pobre Priscila.
Layrtthon Oliveira.
Quem é você?
- Eu não sou uma má pessoa, sou apenas cauteloso. Meu emblema é de frieza, mas meu coração é quente e meu silêncio é para deixar que escutem minha alma. Sou sério e não rio fácil, pois a vida não é um espetáculo, é uma tarefa. Tenho orgulho e tomo café sozinho no shopping center. Pareço durão e não choro, mas sinto como poucos: a dor é o meu dom. Gosto de pessoas, mas de poucas. Para mim o pior luto é por alguém que não morreu, mas que tem a necessidade gritante de ser enterrado. Não sou bíblico: prefiro matar a ser morto. Não sou herói nem sou bandido, ando pelo muro cabisbaixo com uma pasta na mão e fumando um cigarro barato: um cidadão levando sua vida. Não ache que eu seja complicado, apenas não sou simples.
- Eu só queria saber seu nome.
Layrtthon Oliveira.
domingo, 27 de dezembro de 2009
O Último Natal de Silvana
Recordo que eu também estava doente aquele natal, uma doença que me queimava de frio interior e me doloria os membros, a cabeça, os olhos e sobretudo tirava-me a energia vital. Mas era uma doença tão besta diante de Silvana que esta me curava e me fazia ter vergonha de minha fraqueza.
Disse-me numa vez que fui visitá-la que gostaria de um lenço para cobrir sua cabeça despida de pêlos, mas não disse tristemente senão com tom de comicidade e auto-zombaria. Eu que não soube reagir àquilo tão besta que sou, dizendo apenas que lhe traria um belo lenço de seda. Então levei naquele natal um longo lenço de seda cintilante de tons esverdeados que ela passou a usar em vez do seu chapéu de renda azul-marinho com tanta felicidade que eu nunca consegui compreender. Silvana estava apenas os ossos, pequena, de olhos profundos e sem pêlos no corpo mas tinha um lenço bonito na cabeça e um sorriso grande e humilhante . Era uma alma muito grande para um corpo tão pequeno e desgastado, tão grande que precisava partir em busca de outros espaços no universo.
Ligaram-me pouco tempo depois noticiando sua morte e então fui ao velório e não me espantei ao vê-la de pele tão pálida e com lábios que embora tão roxos apresentavam um sorriso sutil, porque quem é feliz de verdade durante toda a vida não há de se entristecer na morte.
Desde então todos os natais sonho com Silvana vindo forte e saudável e com cabelos longos e ondulados segurando aquele lenço nas mãos e me agradecendo por ele. E sinto-me feliz.
Layrtthon Oliveira.
domingo, 20 de dezembro de 2009
Carta a João Polonini
Devo-lhe dizer que ainda vivo. Sim. Embora não veja ainda uma razão exata para tal. Viver para manter-se vivo é a lei que eu, você sabe, nunca entendi e por muito inquietou-me, porém estou conformado agora. Talvez sabê-la, a razão, tiraria toda a graça desta eventualidade. Culpo um pouco minha sapiência. Ora, como não? Duvido que um animal qualquer questione sua existência.
Pois bem, eis a vida: Um fato.
Esta que carrego, devo dizer-lhe, vai como pode com todos os infortúnios e pesares da qual não pode ser isenta. Não tenho uma doença grave tampouco vivo em miséria, mas possuo minhas dores (contudo meu corpo está são).
Há coisas boas também, como sair caminhando vagarosamente pela rua, à sombra, e olhar as árvores – as pessoas não costumam olhar as árvores, não sabem elas o que perdem – e as folhas secas e mortas, mas tão belas, no chão. Tomar um bom café, fumar um bom cigarro, sentar num banco qualquer e ver o mundo, sem pressa. Gostaria que você estivesse comigo.
Mas se quer saber as coisas que me enfadam, como enfatizou que quereria, conto-lhe sem eufemismos: Entristeço-me sobre tudo com o quão as coisas são efêmeras; e quando me refiro às coisas não são apenas àquelas tocáveis – também elas passam – incluo as que não se pode ver e que são por vezes tão ou mais valiosas que matéria. Entristeço-me com o tempo, com a maneira que ele leva tudo embora. E de tudo o que ele costuma levar sinto muito mais pesar pelas pessoas. O tempo leva as pessoas, João. Muitas coisas pode-se fazer de alguma forma, porém me diga: como se faz uma pessoa?
Penso também que pode ser meramente comodismo culpar o tempo, este indefinível. Não teríamos alguma contribuição na efemeridade das coisas? Digo... não me lembro de ter me esforçado para que as pessoas ficassem. Não fiz nada para isso. Acho mesmo que elas precisam ir. Talvez voltem, talvez driblem o tempo, fujam-no, voltem. Talvez não, tudo indica que não... é tão mais provável. Sabe por quê? Porque vêm outras que preenchem a vaga de quem partiu. Não que seja a mesma coisa, compreende? Mas já não será o vazio. Pode ser agradável também.
Eu também parto, você sabe que sim. Parto muitas vezes de muitas pessoas e deixo minha vaga para que outras preencham. Desejo-lhes sorte.
Tenho também carregado as angústias do amor. Imagino às vezes que eu não seja mais capaz de amar, que eu não seja mais um ser capaz de amar. Pior que isso é que penso outras vezes que nunca amei de fato outra pessoa e isso me assusta, de modo que tomo conta de mudar o pensamento. Você sabe que nunca fui mesmo um bom pisciano.
Tenho algumas mulheres com as quais eu posso embeiçar-me ao bel-prazer, porém não tenho a intenção de amar qualquer uma delas, embora o amor nunca tenha vindo quando eu tive intenções, vindo sempre, este ingrato, quando indesejado.
Não me preocupo com questões sociais, políticas, religiosas, culturais... não me interesso por nada disso, sou uma criatura à parte que não faz questão de construir, mas que também não destrói, que vive para manter-se vivo.
Mas há coisa boas, momentos bons e fugazes que por vezes sentado num banco qualquer e vendo o mundo eu penso sem piscar (confesso-lhe que certa vez deixei uma lágrima escapar), imóvel a ponto de pombos pousarem-se em mim... se aqui houvesse pombos.
Espero vê-lo em breve para que tomemos um bom porre e cantemos canções boas ou não tão boas, para que fumemos um cigarro, para que falemos de mulheres, para que sejamos juntos como fomos em outras ocasiões.
João, viver não é uma arte, é um dever.
Um abraço,
Seu sempre amigo.
Layrtthon Oliveira.
Luzia
Layrtthon Oliveira.
Um Menino de Cabelos de Fogo
Quando chegou dirigiu-se à lanchonete que tinha mesas e bancos rústicos de madeira enfeitando-lhe a frente e que também serviam para que as pessoas tomassem café e falassem de coisas de bom senso, pois o lugar inspirava assuntos profundos e bania os de senso comum. Embora tenha pedido um café amargo, não se sentou, mas ficou em pé. Enquanto ao amargo, eu sei porque conheço bem.
Vi-a de longe, do lado oposto no qual ela está agora em pé com o guarda-chuva em uma mão e o copo reciclável de café na outra, a este olhava fixamente, penetrando cada molécula quente e agitada com sua visão profunda, como se quisesse enxergar algo, como fazem místicos que dizem ver o futuro em xícaras com pó de café, mas naquele caso nem era pó, nem era xícara, e ela olhava como se fosse.
Durante todo o tempo que a olhei, e foi um bom tempo, não fez outro movimento senão o de levar o café aos lábios e, depois de bebê-lo, abrir e fechar a boca duas vezes, e voltava a olhá-lo muito misticamente.
- Aquela mulher é imóvel e me chama a atenção - disse eu a um colega ao lado.
- Ela parece muito velha para você, mas eu pegava - respondeu-me.
- Não esse tipo de atenção, mas alguma coisa mais voltada para a curiosidade.
- Por quê?
- Porque está imóvel e bebe café.
E ainda continuei olhando-a enquanto o sujeito ao lado balbuciava algo qualquer que nenhum dos meus sentidos percebeu, pois estavam todos voltados para o lado oposto do lugar onde eu estava.
- Vou até ela - balbuciei.
- Vai lá - respondeu-me o sujeito como se eu tivesse falado com ele, quando na realidade estava falando comigo mesmo em voz alta, pensando, feito uma criança ainda desenvolvendo as capacidades linguísticas, que não somente pensa a linguagem, mas que a expressa para si mesma.
Apanhei o livro de capa dura e azul petróleo do chão e me levantei, ficando primeiro em pé e ajeitando a camisa e depois tomando o caminho mais longo, pois era coberto e eu não tinha guarda-chuva. Enquanto ia, pensei: ‘A menor distância entre dois pontos é uma reta’, e depois: ‘mas as retas não fazem emagrecer’. Ainda caminhando senti o cheiro típico daquele lugar, um cheiro gasoso e bom de droga ilegal que jovens fumavam despreocupadamente inspirados pelo tempo chuvoso.
Exatamente quando fui aproximando-me foi que vi que seus cabelos encobriam 1/3 das nádegas e que não somente seus saltos eram cor de abacate, mas também suas unhas dos pés e das mãos. Só instantes depois é que eu veria que seus olhos eram abstratos como os de alguns gatos.
Aproximei muito timidamente e disse:
- É um dia para muitos cafés.
E ela, pela primeira vez tirando os olhos do liquido negro e abrasante:
- Você viu um menino de cabelos de fogo?
E mesmo sem compreender bem, respondi:
- Mas não é um dia para meninos de cabelos de fogo - pois chovia.
E ela insistente:
- Você viu um menino de cabelos de fogo?
Dessa última vez falou mais vagarosa, como que para enfatizar.
- Não, não vi, e mesmo que tivesse visto, não o teria, pois a chuva teria apagado-lhe.
Foi então que ela chorou e as lágrimas pingaram pelo queixo e caíram dentro do copo, no café.
Um bando de jovens díscolos vinha passando, era um pequeno grupo ridículo deles, em bando, com bandeiras vermelhas e camisas vermelhas que tinham como estampa o rosto de um homem barbado. Gritavam desengonçadamente uma canção dos tempos de ditadura, caminhavam, cantavam e seguiam a canção. Tinham barbas e cabelos longos e bagunçados, com tranças e penduricalhos coloridos, grude, cola de sapateiro, banha de porco, sabe-se lá o quê. Era deles que vinha o cheiro gasoso e bom. No tempo que o dia tinha, pareciam-me andorinhas querendo fazer verão e sem conseguir, obviamente, uma vez que não somente uma andorinha não faz verão, mas também não fazem verão duas, três, quatro ou cinco andorinhas. E embora eu more num país tropical e que tem carnaval em fevereiro, não me convém o verão.
A mulher não os olhou uma só vez, tinha os olhos aquecidos pelo vapor do café que já lhe secara as lágrimas àquela altura, ainda imóvel, eu ao lado, parecia pensar num menino de cabelos de fogo.
- É filho seu? - perguntei invasivamente.
Respondeu apenas:
- É um menino de cabelos de fogo.
Então, como cúmplice, pus-me também a varrer o ambiente com a vassoura do meu olhar, como se em meio a toda sujeira, na qual também há coisas de valor, muito embora raras, eu buscasse aquele intraduzível menino que, dizia a mulher, tinha cabelos de fogo.
Não vi nada parecido, ninguém que pudesse sê-lo. Vi muitas outras coisas, porém:
Um homem florido vendendo palitos que fazem fumaça de cheiro e roupas floridas tais quais as que usa. Além disso, pares de chinelos dos quais cada chinelo tem uma cor diferente, um rosa com um azul, um amarelo com um preto, um verde com um rosa... É um homem de estatura baixa e tem cara de carranca, um vendedor de incensos e roupas floridas. Não, não é. Ou pode ser, mas é também um traficante, e todos fingem que não sabem. Nem eu sei, até porque você não leu nada disso aqui.
Há muitos jovens que o cercam, felizes, floridos, que permanecem assim um bom pedaço da torta do dia, mas que deveriam estar ocupados com outras coisas, com questões acadêmicas, porque, afinal de contas, é para isso que estão lá. Mas estão felizes e floridos com o homem da cara de carranca, e isso lhes basta.
Vi também um docente que, suponho, não estava em seu expediente de aulas, pois andava com uma pequena garrafa caramelo de cachaça nas mãos e sorria gratuitamente e tinha um brilho nos olhos como o de crianças isentas de amarguras, que só têm os ébrios, quando adultos, pois só assim fica-se longe de qualquer pesar, quando se dribla a consciência.
Dois sujeitos curiosos também foram captados por minhas células sensoriais, berço da percepção. Um GG, grande e gordo, o outro PP, pequeno e pouco. Senti que entre eles havia algo mais que a essência simples da presença, que havia ainda um odor de afeto carnal. O maior pareceu engolir o menor. Cadeia alimentar. Ambos G.
Por um breve instante penso que o lugar é uma outra coisa qualquer que não o que é de fato, pois tem-se como uma pequena feira, de tantos artesanatos e bugigangas comercializados em pequenos bancos de improviso, dos quais alguns são mais caprichados, cobertos com um pano branco e fino com rendas enfeitando-lhes as arestas.
Não há um menino de cabelos de fogo.
A mulher ainda olha dentro do copo plástico, já oco, o colega me olha do lado oposto, eu olho a todos e ninguém olha o menino, porque ele não existe ali.
É mundo ou inferno, qualquer coisa, exceto céu, mas, no entanto, há figuras divinas de cromossomos xx, pois embora divinas, são sexuadas. Vejo-as ainda enquanto meus olhos varrem, e ao vê-las sinto a comum vontade de tê-las e a aflição de não as ter, a vergonha de não buscar e a dor, não inveja, de terem outros.
- É seu filho? – pergunto.
Não há resposta.
Agora a chuva cessa, o cheiro de terra molhada vem acompanhado de um ar abafado, surge o calor, como que aquecido por algo. Reviso os personagens: a carranca, os discentes, os docentes, os artesãos, os comerciantes, as ninfas. Os olhos de todos voltam-se para um lugar comum, e andam juntos, acompanhando o caminhar de um menino quase transparente de cabelos de fogo que agora surge sem porquê por entre o caminho coberto e caloricamente vantajoso. Olho-o desacreditado e pasmo; não somente seus cabelos são de fogo, mas também seus cílios e sobrancelhas, e, mais tarde, as partes mais quentes também o serão. Parece que levou a chuva quando veio.
A mulher não o olha ainda, seus olhos abstratos de gato fixos no ex-café, no vácuo. Mas ela sorri, pois sabe de alguma forma da presença do infante, sente o calor que ele emana, a radiação contagiosa.
Talvez ele não causasse tanto espanto caso fosse este um ambiente lavoso, mas somos todos cinzas, nem pretos, nem brancos, cinzas. Mestiços: mulatos, cafuzos, pardos, mamelucos, sararás... e ele é um menino quase transparente que tem fogo nos pêlos.
Agora a mulher o olha, ele dirige-se até ela, ela põe-se de cócoras sobre seus saltos cor de abacate, solta o guarda-chuva e o copo, despreza-os. O menino corre até ela, sorrindo de olhos quase fechados e boca muito aberta, dócil, puro, quente. Pega-o, agarra-o, levanta-se, abaixa-se, move-o como se fosse um objeto leve e ardoroso, ama-o. Todos olham. Eu olho.
Pergunto:
- É seu filho?
- Não, é um menino de cabelos de fogo.
Layrtthon Oliveira.
Abacílio
Abacílio sempre vivera ali, sentado naquele banco de madeira infiel da pequena praça do centro da cidade. Fizesse chuva ou sol, Abacílio estava lá.
O Velho que Trepava com a Estátua
No baricentro da praça uma estátua enfeitava o lugar. Tinha beleza estrondeante e um certo ar de erudição, como aquelas gregas ou romanas mutiladas.
Um gordo velho de poucos cabelos e muita barba, quase desdentado e com fundos de garrafa sustentados pelo pequeno nariz no centro da face circular, maltrapido e fétido, sem modos e vulgar estava sempre aos arredores daquela escultura de rocha tosca, quando não agarrado a ela. Dizia ser sua mulher. Não dizia, porém, que a amava. Amor é patético, ainda mais dizê-lo. E um homem daqueles, ora, jamais o diria.
Contudo, a grande pedra de bonita forma humanóide ostentava pelo sujeito uma espécie de sentimento próximo daquilo que os primitivos denominam amor. Sim, há apreço para tudo, infinitas formas de gostar e ser gostado. Ele, por exemplo, demonstrava através de bofetadas e grosserias, ainda que sua mão viesse a sangrar e vestir o monumento com um longo vermelho.
Fizera, outro dia, um orifício nas partes da infértil estátua... e não somente nas noites, mas também nas tardes de mais sol a copulava desavergonhosamente, ali mesmo, em frente às igrejas cristãs, à vista de qualquer um. Ao fazê-lo, não soltava uma só palavra de ar romântico, era rude e não pensava no prazer feminino. Ia quando queria, jamais mandava flores no dia seguinte. Era relacionamento moderno, ideológico... E ela, a estátua, gostava mesmo era daqueles beijos pedregosos, não dos molhados com a saliva dos sentimentos.
O Homem que Olhava o Próprio Umbigo
A poucos metros do excêntrico casal, repoltreado num banco amplo, à sombra de uma samambaia, encontrava-se um sujeito de papel importante no folclore daquela praça. Chamavam-lhe de Eu, uma vez que este era o único pronome que usava, de modo que atrapalhava o português com alguns verbos ao referirem-se a ele nos três tempos.
Em outros dias foi popular. Tinha o conhecimento de todos e pensava ter a amizade de também muitos devido à confiança que depositava e imaginava ter como retorno, achando ser o suficiente. Uma casa não se faz apenas do alicerce, mas também das paredes e do teto, é preciso construí-los com as próprias mãos, para que a casa seja firme e segura.
Hoje Eu vive com a esdrúxula mania de olhar apenas para o próprio umbigo, jamais desvia a atenção, seja para fazer o que for. Alimenta-se olhando para o umbigo, conversa olhando para o umbigo, transa olhando para o umbigo, ama olhando para o umbigo. Além disso, quando precisa desabafar ou dormir não muda a posição. Ainda que feche os olhos, ao abri-los é o umbigo que vê primeiro. E quando Eu chora, seu umbigo que é molhado pelas lágrimas secas.
Eu vive numa espécie de inércia de outros tempos, tem como amigo aquele estranho elemento da morfologia humana. Confia nele e basta.
As Meretrizes
As arestas eram sempre enfeitadas por mulheres de corpos muito bem distribuídos e faces milimetricamente corretas. Algumas até sabiam falar de coisas diversas e tinha bom gosto. Eram jovens, todas muito bem vestidas. Eram caras.
Homens e homens, dos mais belos e sábios, formavam filas que circundavam toda a praça para tentar aproximação das jovens hipnotizantes, como gente faminta com criança na fila do leite e do pão. Perdiam seu tempo.
Toda nobreza estética e luxúria daquelas moças eram apenas para os homens mais decrépitos, brutamontes trogloditas de cérebro primitivo. Não tinham culpa, coitadas... recebiam ordem maior de Dona Heidi, uma cafetina cega da alta sociedade.
Por que estavam naquela vida? Ora, sabem responder tanto quanto qualquer outra pessoa de vidas diferentes. Se gostavam ou não, não se sabe. Sabe-se apenas que embora passassem noites selvagens e quentes desprovidas de gentileza com seus senhores, vez por outra desfilavam pela cidade segurando placas e cartazes que gritavam frases como “Homens não prestam”.
As Freiras, Os Santos e Os Ladrões
Do outro lado da rua, as igrejas cristãs. Pedaços do céu no quase-inferno. Uma milenar, outra moderna. Nelas, mortais disfarçados de semideuses.
As senhoras – que da praça mais se pareciam com pingüins – eram sempre vistas andando de um lado para outro no interior da construção. Era possível vê-las por causa das grandes portas abertas, indiscretas, nas quais terminava o pátio trapeziforme com o lado maior voltado para o mundo, para que todas as coisas convergissem para Deus.
As meninas da praça achavam-nas patéticas, mas tinham certo respeito, embora duvidassem da castidade. Imaginavam que na primeira oportunidade que os pingüins tivessem, rasgariam o hábito e jogariam a auréola fora. “Nas torturas toda carne se trai”.
Elas, as freiras, no fundo de seus inconscientes mais obscuros, invejavam as meninas da praça. Sentiam-se culpadas e rezavam.
Também lá, na casa do Senhor, santos de batina enfeitavam o ambiente. Não os trepados nas paredes ou móveis, feitos de pedra como a estátua fria da praça, mas os que falam, que andam e que, por vezes, mostravam uma estranha elevação na batina, quando pensavam nas meretrizes. Achavam estranho que as crianças já não fossem à igreja.
No prédio vizinho, de arquitetura bem mais contemporânea, homens desciam trajados de terno de seus carros luxuosos, carregando pelas mãos suas loiras, que muito bem poderiam trabalhar na praça. Entravam no prédio, gritavam, pegavam suas percentagens e iam embora.
Certamente as coisas que ocorriam do lado oposto à praça bem poderiam não ser gerais, universais. Mas dali, daqueles bancos frágeis, debaixo dos tamarindos, daquele ângulo, era o que se via.
Abacílio
Abacílio sempre vivera ali, sentado naquele banco de madeira infiel da pequena praça do centro da cidade. Fizesse chuva ou sol, Abacílio estava lá. Parecia colado, que já nascera sentado, que fora esculpido como a estátua. Observava a tudo com olhos de interesse e amiúde preocupados. Tudo via, entendia e sofria. Sofria porque era besta, porque não era tão indiferente quanto o homem do umbigo, nem tão frio como a estátua, nem grotesco como o homem que a violentava. Abacílio sentia as dores de tudo, tamanha sua sensibilidade. Sensibilidade besta. Talvez a estátua estivesse certa: É preciso ser moderno. Mas Abacílio não era. Era daquele jeito besta.
Saudava a quem passasse por ele, e era ignorado. Acariciava os cabelos das crianças, e ficava sem jeito da forma que somente criança sabe deixar. Dava dinheiro a mendigos, e era xingado quando os mesmos voltavam bêbados. Todas as suas ações tinham reações inversas, exceto quando as próprias ações eram más. No fundo sabia que não poderia esperar que os outros fossem espelhos, que agissem da mesma forma que ele, que fossem da mesma forma. Os outros eram opacos. Não pensava que fossem o inferno, e sim uma espécie de paraíso desagradável.
Quem sabe não fosse ele o elemento estranho daquela velha praça, o inadaptado, o fraco? Em meio àquelas coisas – e a muitas outras –, sentia-se angustiado. Sentia que deveria ir embora.
Abacílio não condenava ninguém, cada qual como é, como pode, como quer. Mas Abacílio julgava, julgava sim, porque é tão natural quanto o choro. Como não poderia modificar as pessoas, restava-lhe modificar a si mesmo, adormecer-se.
Abacílio foi embora, dizem que não por muito tempo, apenas pelo tempo necessário para mudar seu exoesqueleto, como um artrópode asqueroso e incontente. Era um besouro. Não um besouro kafkiano, que já amanhece besouro, mas um besouro por vontade própria, de propósito. A estátua espalhava pela praça que ele a procurara com a intenção de saber o tipo de concreto que a compunha. Queria o mais seco e frio, que o tornasse indiferente às coisas, que o protegesse das dores bestas.
As coisas da praça aconteciam rotineiramente na ausência de Abacílio, como sempre aconteceram, independentemente dele. Voltou. Trouxe o próprio banco, já não sentava no de costume. Já não saudava, acariciava, dava dinheiro. Não ligava mais para nada: Tornou-se indiferente a tudo com suas vestes de cimento.
Tinha a certeza de que não duraria, que seria efêmero. Abacílio jamais conseguiria tornar-se indiferente e isento das dores. Aquele era seu jeito: besta. Logo voltaria a ser como antes, em breve passaria o efeito do placebo e tudo aconteceria como de praxe, inevitavelmente.
Mas Abacílio, embora frustrado, tinha a consciência tranqüila:
Tentara.
Layrtthon Oliveira.